
Trifole
Aventura
100 minutos
Diretor
Gabriele Fabbro
Roteiristas
Gabriele Fabbro
Ydalie Turk
Elenco
Ydalie Turk como Dalia
Umberto Orsini como Igor
Margherita Buy como Marta
Birba como o cão caçador de trufas
Enzo Iacchetti como Leiloeiro
Frances Sholto-Douglas como Princesa Casey

O filme “Trifole”, de Gabriele Fabbro, começa como uma história direta sobre um modo de vida que está desaparecendo rapidamente, antes de se fragmentar na tradição acumulada e nos contos de fadas que ainda ecoam na província de Langhe, na Itália, lar da poderosa trufa branca de Alba. (O filme de 2020 “The Truffle Hunters” se passa na mesma região.) Anne Shirley, de Anne de Green Gables, diria que caçar trufas oferece uma “ampla imaginação”, como evidenciado pelo número de filmes que as apresentam.
“Trifole” é fantasioso, às vezes conscientemente assim, e sua mistura de elementos de conto de fadas tem um propósito claro, mas resulta em alguma estranheza estrutural. (Fabbro coescreveu o roteiro com Ydalie Turk, uma das duas atrizes centrais, e eles incorporaram histórias ouvidas de pessoas da região.) É um filme claramente feito com muito amor e cuidado.
A paisagem do Piemonte é a “estrela” na sequência de abertura, quando Dalia (Turk) chega a uma pequena estação de trem e caminha para encontrar a casa de seu avô, Igor (Umberto Orsini), um caçador de trufas idoso que vive sozinho com seu cão Birba. Dalia, segurando seu celular, atravessa pequenas cidades, passa por fileiras de vinhedos, vagueia por campos. Não há muitas pessoas por perto.

O diretor de fotografia Brandon Lattman realiza um trabalho magnífico, capturando a suavidade e o calor da luz dessa paisagem, tudo emanando de uma quietude rural. Igor não está esperando por Dalia. Na verdade, ele não se lembra dela e a chama de “Marta”, o nome da mãe de Dalia. Dalia viveu em Londres na maior parte de sua vida e seu italiano é limitado. Marta (Margherita Buy), vista em videochamadas com Dalia, quer que a filha avalie como Igor está.
Igor não está bem. Sua casa está deteriorada e ele está perdendo a memória. A adorável Birba o acompanha em suas expedições para buscar trufas. Vinhedos cercam a propriedade de Igor por todos os lados e ele está sendo despejado (ele ignora as notificações). Sua casa pode estar desmoronando, mas tem um encanto imenso, como um lugar tranquilo que o tempo esqueceu.
Somos informados de que não devemos nos apegar ao passado. Certo — mas isso significa que devemos simplesmente descartá-lo? A casa de Igor não é apenas uma casa. Ela está conectada a séculos de história. Perdê-la seria o fim de todo um modo de vida. Igor rabisca pequenos mapas em seu caderno de trufas, acompanhando suas descobertas e planejando novos lugares para procurar.
A mudança de tom, quando chega, é rápida e desorientadora. Havia uma sensação de estranheza no filme desde o início, já que Igor está tão próximo dos antigos costumes. Ele fala a ela sobre sinais de Júpiter e sobre os relâmpagos e a chuva que trazem as condições perfeitas para caçar trufas.
Dalia, uma jovem distraída e vagamente insatisfeita, torna-se envolvida no mundo de Igor. Quando Dalia e Birba saem sozinhas para buscar trufas, erros se acumulam. É um trabalho difícil: caminhar, cavar, enfrentar o frio e a umidade. Algo mágico acontece, algo trágico segue, e de repente o mundo se inclina para o fantástico. Dalia não está apenas procurando trufas.

Ela está em uma missão. Forças sombrias procuram impedir seu progresso. É fácil acreditar em bruxas quando você está sozinha naquelas florestas. Dalia corre de volta para a casa de Igor, através das cidades, vinhedos e campos que vimos antes, mas agora, o mundo é diferente.Uma sequência de destaque, diferente de qualquer outra no filme — seja pela paisagem, atmosfera ou humor — é a feira de Alba, um evento regional completo com um leilão sofisticado de trufas.
Dalia basicamente invade o evento, acabando, de alguma forma, em um vestido medieval, com uma coroa na cabeça, juntando-se ao cortejo de princesas que carregam as trufas premiadas para o salão do leilão. É o conto de fadas encontrando o mundo moderno. De repente, tudo é filmado com câmera na mão, um rompimento brusco com o ritmo lento e contemplativo de tudo o que veio antes.
Dalia fingindo ser uma princesa é pura comédia maluca. Ela até finge desmaiar em certo momento para evitar uma tarefa que não quer fazer, invocando a ira das outras princesas já irritadas. De repente, um filme com apenas três personagens (Igor, Dalia, Birba) torna-se uma cena cheia de gente.
A busca de Dalia por trufas na floresta transformou-se numa missão de conto de fadas, e assim não parece estranho vê-la correndo por festas em boates usando uma coroa, ou subindo intermináveis lances de escada, segurando o vestido para não tropeçar. Eu poderia ter assistido a um filme inteiro sobre essa mulher enlouquecida em um vestido de princesa invadindo festas e causando caos.
Nenhuma fada madrinha está balançando sua varinha mágica para garantir a casa de Igor, para manter o delicado fio que liga ao passado. O progresso pode ser positivo. Mas tem um custo. Há vítimas. Profissões inteiras desaparecem da terra com cada avanço tecnológico. As tradições antigas não são apenas “maneiras de fazer as coisas”.
Tradições são as histórias das pessoas, conectando-as a seus ancestrais, a esse pedaço de solo. O conhecimento é transmitido literalmente — receitas, moldes de costura, mapas desenhados à mão para trufas — mas também simbolicamente: mitos, fábulas, contos de fadas. Não há como colocar preço em nada disso, e isso, afinal, é o que “Trifole” realmente trata.
