
Left-Handed Girl
Drama
108 minutos
Roteiro
Sean Baker
Shih-Ching Tsou
Direção
Shih-Ching Tsou
Elenco
Janel Tsai como Shu-Fen
Ma Shih-yuan como I-Ann
Nina Yeh como I-Jing

A colaboradora de longa data de Sean Baker, Shih-Ching Tsou, faz sua estreia solo na direção com o doce e comovente “Left-Handed Girl”.
Baker coescreveu o roteiro com Tsou e editou o filme; Tsou foi produtora e interpretou papéis coadjuvantes em “Tangerine”, “Projeto Flórida” e “Red Rocket”, todos de Baker. Recién saído de seu domínio no Oscar com “Anora”, Baker reencontra uma velha amiga e retorna a muitas das ideias e técnicas que definiram seu trabalho indie inicial.
Sente-se o amor compartilhado de ambos pela arte de contar histórias em cada momento deste filme íntimo e enérgico. Filmado em um iPhone, assim como “Tangerine”, “Left-Handed Girl” foi realizado com muita criatividade, vigor e coração.
Ele coloca o espectador bem no meio da ação no agitado mercado noturno de Taipei, explodindo em tons de rosa choque e verdes vibrantes. E apresenta uma atuação eletrizante da jovem Nina Yeh, já uma atriz mirim veterana aos 9 anos. Ela tem postura e presença muito além de sua idade, além de uma surpreendente capacidade dramática.
Vemos o mundo pela perspectiva da personagem de Yeh, I-Jing, enquanto ela se muda do interior com a mãe e a irmã mais velha em busca de um recomeço. Às vezes isso é literal, como na sequência de abertura do filme, em que I-Jing olha através de um caleidoscópio enquanto sua pequena família dirige rumo a essa cidade imponente.

Ângulos de câmera baixos nos permitem experimentar as vistas lotadas e os sons constantes do labiríntico mercado como ela: com encanto, alguns problemas e um universo de possibilidades.
Como acontece em grande parte do trabalho de Baker, “Left-Handed Girl” foca em pessoas às margens: gente comum tentando construir uma vida dentro das limitações econômicas e sociais. A animada e precoce I-Jing lembra Moonee, interpretada por Brooklynn Prince em “Projeto Flórida”, outra garotinha que precisou cuidar de si mesma cedo demais.
I-Jing vai à escola — o nervosismo do primeiro dia está evidente em seu adorável rosto —, mas suas verdadeiras lições vêm do mercado noturno, onde sua mãe, Shu-Fen (Janel Tsai), alugou uma barraca de noodles. A irmã mais velha, I-Ann (Shih-Yuan Ma), ajuda a contragosto, mas preferiria ganhar mais dinheiro (e evitar as broncas da mãe) trabalhando em outro lugar.
E dinheiro é uma preocupação constante, tanto que a observadora e ambiciosa I-Jing encontra maneiras criativas de ganhar alguns trocados para ajudar a família. Baker usa cortes ágeis para acompanhar a garota em suas aventuras iluminadas por néon, filmadas com destreza pelos diretores de fotografia Ko-Chin Chen e Tzu-Hao Kao, enquanto a trilha percussiva cria um ritmo contagiante.

No entanto, torna-se cada vez mais claro que, mesmo dentro dessa metrópole moderna, Shu-Fen e suas filhas nunca irão muito longe, pois têm o infortúnio de serem mulheres. O divórcio de Shu-Fen continua sendo um peso, e sua mãe jamais dará a ela ou às suas irmãs a mesma atenção que dá ao único filho homem da família. A indignação de Tsou diante desses papéis de gênero antiquados é sutil, mas inconfundível.
Falando em ideias arcaicas, I-Jing começa a temer que tenha o diabo dentro de si por ser canhota. Isso vem, claro, de um homem: seu avô tradicional e supersticioso, que critica a maneira como ela segura os hashis ao comer noodles. A tentativa dela de combater essa tendência natural pode ser tanto engraçada quanto perturbadora.
Também acompanhamos a vida da irmã mais velha, I-Ann, e o que se tornou dela em comparação com suas amigas de infância que foram para a universidade. Ela tem um ar rebelde e descolado, mas, quando se arruma para encontrá-las em uma festa kitsch em um quarto de hotel, vemos sua vergonha e vulnerabilidade. Ma transmite todas essas emoções de maneira orgânica e verdadeira.
Mas, eventualmente, “Left-Handed Girl” introduz subtramas demais, e todas chegam ao clímax explosivo ao mesmo tempo durante um banquete de aniversário familiar. O melodrama dessa cena é chocante em comparação com o naturalismo do resto do filme. Ainda assim, os temas finais de perdão, reconciliação e redenção brilham, e a visão jubilosa de I-Jing saltitando pelos corredores do mercado é impossível de resistir.
